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A Saúde mental dos (as) trabalhadores (as) sem trabalho




O trabalho ostenta uma gama de significados para os sujeitos. Nesse sentido, segundo Barros e Oliveira (2009), além do campo econômico ele caracteriza também um papel social, uma forma de inserção na sociedade, bem como é estruturante da organização social, como também de identidade e interação social dentre outros. Já Antunes (2005) nos relata que o mundo do trabalho tem sido vital para mulheres e homens e que através do ato laborativo, que Marx chamou de “atividade vital”, essas pessoas se diferenciariam de animais.

Logo, em vista dessa variedade de significado, pode-se presumir os impactos que o desemprego acarreta na saúde mental dos (as) trabalhadores (as). De acordo com Barros e Oliveira, (2009) pessoas em situação de desemprego possuem, com mais frequência e intensidade, sofrimentos relacionados à baixa autoestima, sentimento de vergonha e humilhação. O (a) trabalhador (a), no momento que vivencia essa experiência do desemprego, ainda segundo os autores, perde sua identidade social, perde seu status de “homem/mulher trabalhadora (a)”.

É perceptível nos programas policiais sensacionalistas de nosso país o discurso da maioria dos familiares das vítimas da violência, de evidenciar que a pessoa em questão possuía um trabalho, era um (a) trabalhador (a), denotando que ser trabalhador (a) possui um valor ético-moral. O pensamento cristão pode ser um corroborador dessa ideia. Antunes (2005), a respeito disso, afirma que o pensamento cristão sobre trabalho é entendido como um martírio e caminho para a salvação, dando sequência a um entendimento da questão do trabalho que por vezes é controverso. Então é frequente nos (as) trabalhadores (as) que se encontram em situação de desemprego, o sentimento de desamparo, exclusão e vergonha (Barros e Oliveira, 2009).

Além disso, a ideologia dominante culpabiliza o (a) trabalhador (a) por sua condição de desemprego, apontando que sua desqualificação ou falta de empregabilidade e proatividade é a razão para sua situação, logo, esse sujeito sofre pela falta material, perda de identidade e agora, também, pela responsabilidade de sua própria condição de desamparo (Barros e Oliveira, 2009). O que simplifica erroneamente uma temática complexa, excluindo aspectos históricos, sociais, políticos e econômicos vigentes em nossa sociedade que contribuem para a condição de desemprego de muitos.

No Brasil, no mês de junho de 2020, segundo Barros (2020), foram registrados 12,4 milhões de desempregados, atingindo assim 13,1% da população brasileira. Essa situação se agrava pelo contexto de pandemia do novo coronavirus (COVID-19) que, de acordo com Brooks e colaboradores (2020), aumenta a probabilidade de um quadro de ansiedade, disposição a depressão e afins. Corroborando para uma intensificação do sofrimento já proporcionado pelo desemprego

Em vista do exposto, é nítida a influência negativa do desemprego na vida dos (as) trabalhadores (as). Contudo, isso não quer dizer que quem não esteja desempregado não tenha sua saúde mental afetada. Conforme Pinheiro e Monteiro (2007), há nos trabalhadores (as) um medo imperativo do desemprego, da falta de seu “ganha pão amanhã”. O trabalho precário torna-se então uma forma de sobrevivência desses sujeitos, mesmo sendo contra sua própria vontade (Nardi, 2006). Assim, submetem-se a esse tipo de trabalho para não se tornarem mais um entre milhões que compõem a classe trabalhadora sem trabalho.




Referência
*Imagem: Ana Rayssa/CB/D.A




Pinheiro, L,R. Monteiro, J,K. Refletindo sobre desemprego e agravos à saúde mental. Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. 2007. Disponível em: ,http://pepsic.bvsalud.org/pdf/cpst/v10n2/v10n2a04.pdf

Antunes,R. O CARACOL E SUA CONCHA: Ensaio sobre a Nova Morfologia do Trabalho. Boitempo. São paulo. 2005.

Nardi, H,C. Ética, Trabalho, Subjetividade. Ed. UFRGS, 2006.

Barros, C,A. Oliveira, T,L. Saúde Mental de Trabalhadores Desempregados. Rev. Psico., Organ. Trab. v.9 n.1. Florianópolis. 2009. Disponível: http://pepsic.bvsalud.org/pdf/rpot/v9n1/v9n1a06.pdf

Barros, A. Desemprego sobe para 13,1% e atinge 12,4 milhões na 4ª semana de junho. Agência IBGE notícias. 2020. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/28310-desemprego-sobe-para-13-1-e-atinge-12-4-milhoes-na-4-semana-de-junho

Brooks,S,K.Webster,R,K.Smith,L,E.Woodland,L.Wesseley,S.Greenberg,N. Rubin,G,J. The psychological impact of quarantine and how to reduce it: rapid review of the evidence. The lancet,2020. Disponível em: https://www.thelancet.com/action/showPdf?pii=S0140-6736%2820%2930460-8

1º de Maio: A classe trabalhadora hoje tem algo a comemorar?


Em 1º de maio de 1886 nos Estados Unidos trabalhadores iniciaram uma grande greve na busca pela redução da absurda carga horária que era imposta à classe trabalhadora da época. O governo vigente respondeu com violência aos apelos de milhares de trabalhadores em todo o país. Prisões arbitrárias, julgamentos controversos e logo a morte de operários sindicalistas. Em Paris, em 1889, a segunda internacional homenageia os trabalhadores mortos, conhecidos como os mártires de Chicago, e institui o 1º de maio como o dia do trabalhador. No Brasil, segundo Silva e Ribeiro (1995), a data foi oficializada em 1925, sendo, ao decorrer do tempo, experienciada de forma distinta. Ora com festejo e homenagem organizado por sindicatos e autoridades públicas, ora apenas com debates referentes ao salário e, posteriormente, com uma tentativa de volta às ruas, mas com repressão da ditadura na década de 60.
E quando falamos de hoje, o (a) trabalhador (a) tem motivos para comemorar? Vivenciamos neste momento a pandemia do novo coronavírus, a qual de acordo com a World Health Organization (WHO) (2021) até o dia 30 de abril de 2021 mundialmente eram 150.110.310 casos confirmados e 3.158.792 de mortos. É nesse cenário trágico que a classe trabalhadora se encontra. Abarrotada no transporte público, expostos (as) ao vírus que, em muitos casos, já foi fatal para algum ente querido, os trabalhadores lutam para não se juntarem aos 13,9 milhões de desempregados que o IBGE totalizou no quarto semestre de 2020. É negado às (os) trabalhadoras (es), que tanto contribuíram e contribuem para nosso país, auxílio na renda nesse momento tão desolador no qual muitas (os) perderam seus empregos em vistas das medidas de distanciamento social tão importantes para o combate ao vírus. Vimos nos noticiários trabalhadoras domésticas serem acusadas de trazerem o vírus para a família de seus patrões, serem infectadas e morrerem sem a presença da família, não podendo realizar completamente os rituais religiosos e/ou  de despedida de seus entes em seus últimos momentos.
Diante da crise sanitária, social, política e econômica em virtude da Pandemia, estamos vivenciando mudanças bruscas em nossa relação com a vida, com os outros e com nós mesmos. O trabalho, atividade que sempre ocupou lugar central nas vidas de muitas pessoas, hoje para uma minoria pode ser motivo mantenedor de equilíbrio frente ao caos e sensação de desamparo que se vivencia no mercado laboral. Infelizmente, temos percebido que para a maioria da população a situação está sendo bem desafiadora. Dificuldades de adequação ao home office, o medo de continuar saindo para trabalhar com o vírus em circulação, ou pior, ficar em situação de desemprego. Essas são algumas de muitas situações diferentes em que os trabalhadores se encontram hoje. Sem saber o que se pode esperar do futuro, como manter o equilíbrio e reagir a isso tudo? Acreditamos que essa é uma luta coletiva e contínua, como sempre foi! É importante entender que estamos vivenciando um problema complexo e que está fora do controle individual e que exige ações coletivas. Apesar de estarem em situações diversas, há uma reestruturação e intensificação laboral comum a todos os trabalhadores e desempregados, de todos os diferentes setores. Pode essa, ser uma possibilidade de fortalecimento do sentimento de coletividade e cooperação social da classe que vem sendo enfraquecida pelas engrenagens do capitalismo? Essa cooperação é forte o suficiente para gerar uma resistência da classe trabalhadora nesse contexto de crise? Qual o poder dela diante das mudanças no mundo do trabalho que ocorrerão no pós Pandemia?
Hoje, temos que fortalecer a ideia de que a luta e a mudança da realidade laboral são ações coletivas e que precisamos nos unir para cuidarmos de nossa saúde mental também enquanto coletivo.

A classe trabalhadora hoje tem algo a comemorar?

Referência 
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Desemprego 2021 Disponivel em: https://www.ibge.gov.br/explica/desemprego.php acesso: 28/04/2021

NASCIUTTI, Jacyara Rochael. Pandemia e perspectivas no mundo do trabalho. Caderno de Administração, v. 28, n. Edição E, p. 82-88, 2020.

World Health Organization (WHO). Who coronavirus (COVID-19) Disponivel em :https://covid19.who.int/ Acesso: 01. Mai 2021.

Trabalho doméstico na pandemia: Após o almoço no home office, de quem é a louça?



Em dezembro de 2019 foi identificado um novo tipo de vírus que muitos países não estavam preparados para enfrentar. Autoridades governamentais do mundo orientaram aos seus cidadãos e cidadãs, que potencialmente tiveram contato com a infecção, que permanecessem em suas casas em quarentena (Brooks et al., 2020), para que não houvesse uma maior disseminação do até então desconhecido Coronavirus. A partir desse cenário, visou-se a implementação de home office em várias empresas. Ou seja, os trabalhadores e trabalhadoras iriam exercer suas atividades de modo remoto em suas casas. Antunes (2020), coloca que tal prática se caracteriza quase como um verdadeiro "laboratório de experimentação” advinda do avanço informacional-digital que não é atual, mas que vem se intensificando com o tempo. O autor ainda afirma que a prática dessa forma (home office) traz alguns aspectos como: individualização do trabalho, menos práticas solidárias e coletivas no espaço de trabalho, fim da separação da divisão tempo de trabalho e tempo de vida, dentre outras que no ponto de vista do capital são vantajosas para os empresários.

A duplicação e justaposição entre trabalho produtivo e reprodutivo, no home office, segundo Antunes (2020), incide no aumento do trabalho feminino nos lares brasileiros que, agora, em vista da pandemia, se fazem também “escritórios”. Em 2019, 92,1% das mulheres realizaram atividades domésticas, contra 78,6% dos homens (IBGE, 2019). A pesquisa considerou como tarefas domésticas atividades como: preparar ou servir alimento, arrumar a mesa, lavar a louça, cuidar da limpeza, cuidar dos animais domésticos, fazer compras e demais atividades feitas no lar. Com relação ao cuidado de pessoas, entendido pelo IBGE (2019), dentre outras ações, como o auxílio nos cuidados pessoais e nas atividades educacionais, 36,8% das mulheres afirmaram realizar essas atividades e 25, 9% dos homens cumprem o mesmo trabalho. Além disso, Brooks e colaboradores (2020) trazem que a experiência da quarentena pode trazer para as pessoas danos críticos à saúde mental, sintomas graves de depressão, estresse pós-traumático, raiva e baixo rendimento no trabalho. Contudo,como estamos vendo, a experiência da quarentena não é vivida igualmente entre homens e mulheres, sendo provável que dentro das residências brasileiras tenhamos, neste momento, trabalhadoras ainda mais adoecidas e sobrecarregadas com trabalho home office e o trabalho doméstico.

Esta pandemia, que outrora era apresentada, nas redes sociais e mídia, como “democrática, sem distinção de classe, raça e gênero”, distingue precisamente quem tem o direito, primeiramente ao emprego, em vista de que 14,6 milhões de brasileiros (as) foram afastados de seus empregos entre 24/05 e 30/05 (IBGE, 2020); e, também, os privilégios entre o trabalhador e a trabalhadora em regime home office. Pois, é sobre a mulher que o trabalho doméstico irá reincidir. Diferenciando profundamente a experiência da quarentena já tão danosa à saúde.

Porém, não se pode generalizar para todas as mulheres a vivência do trabalho doméstico como igual. Krúpskaia (1909-1910/2020) aponta que a mulher de posses transfere à empregada o dever do cumprimento dos afazeres de casa. Ainda assim, o trabalho recai para uma mulher, estendendo a relação de opressão. Pode-se observar algumas diferentes situações que muitas empregadas, em sua maioria negras, vivenciam nesse período de pandemia. Muitas foram demitidas pela crise instaurada, e até mesmo, pelo receio de serem vetores do vírus (DIEESE, 2020). Outras foram mantidas permanentemente sem poderem retornar a sua própria casa (ONU MULHERES, OIT, CEPAL, 2020). Também, houve as que se beneficiaram com ações governamentais na tentativa de manter o emprego de trabalhadoras que tiveram seus contratos suspensos ou salário reduzido, (DIEESE, 2020), uma alternativa para as famílias que não queriam demitir suas funcionárias. Ainda tiveram aquelas que não foram liberadas de seus trabalhos. Antunes (2020) nos lembra o caso de uma empregada doméstica que não foi liberada de seus serviços e foi infectada pela patroa que não a avisou que testava positivo para coronavirus, e que dias depois veio a falecer. Assim, ainda segundo Antunes, a produção social, que deveria atender às necessidades humanas-sociais, se entrega para a auto-reprodução do capital, tendo como consequência a “mercadorização da vida”. É negado às mulheres empregadas, pobres e negras o direito à quarentena. É imposto a essas trabalhadoras cuidados com sua saúde como de sua família, e ainda a realização das tarefas domésticas de sua casa e de seus patrões, tendo em vista que seu trabalho não oferece a opção home office. Ficando entre a exposição ao vírus e o desemprego em meio a uma devastadora pandemia.

Por fim, a fala de Krúpskaia sobre a hipocrisia do “respeito” pelo trabalho doméstico, no século passado, ainda se faz presente no século XXI, já que muitos que pronunciam esse respeito por esse trabalho jamais de fato o fazem (Krúpskaia, 1909-1910/2017). Segundo ela, enquanto a vida familiar estiver ligada a tarefas como limpar, cozinhar, educar os filhos e afins, o trabalho doméstico ainda recairá sobre a mulher, e aquelas que forem contra essa situação serão acusadas de não “amar” seus esposos e famílias. Ademais, como disse Silvia Federici em relação à falsa ideia de amor construída pelo patriarcado, (Tzul, 2017), tudo se faz por amor, que por amor se limpa e cozinha, mas esquecem de considerar que o que chamam de amor, não é nada mais que serviço não pago.

O tema do trabalho doméstico tem sido estudado no NUTRA, principalmente, sob a supervisão da pesquisadora Antônia Vaneska Timbó de Lima Meyer, professora substituta do curso de Psicologia da Universidade Estadual do Ceará (UECE), coordenadora do Núcleo de Apoio Psicossocial à Comunidade da UECE (NAPSI) e membro do NUTRA. Recomendamos, para um maior aprofundamento do tema, a leitura de sua dissertação de mestrado intitulada “O lugar do trabalho reprodutivo: um estudo com donas de casa da cidade de Fortaleza”, defendida em 2018 sob orientação do prof. Cássio A. Bras de Aquino.





Nota: Apesar da discussão aqui abordada ser referente ao gênero Feminino, o texto foi redigido por um extensionista homem cis, com supervisão de sua orientadora, compreendemos a importância do protagonismo das mulheres e o local de reflexão e de mudança comportamental do homem cis na discussão. Estamos abertos ao diálogo e feedback de todas e todos.



* O termo quarentena se difere de isolamento,porque o último se caracteriza como isolamento da pessoa que já tenha sido contaminada pelo vírus, distanciando-se das pessoas saudáveis, (Brooks et al., 2020).

Imagem: Edilene Pereira, 41 anos. Toni Pires.

Fonte:


ANTUNES,R. Coronavirus: O trabalho sob fogo cruzado. 1. ed. São Paulo. Boitempo. 2020.


BROOKS,S,K.WEBSTER,R,K.SMITH,L,E.WOODLAND,L.WESSELY,S.GREENBERG,N. RUBIN,G,J. The psychological impact of quarantine and how to reduce it: rapid review of the evidence. The lancet,2020. Disponível em: https://www.thelancet.com/action/showPdf?pii=S0140-6736%2820%2930460-8

DEPARTAMENTO INTERSINDICAL DE ESTATÍSTICA E ESTUDOS SOCIOECONÔMICO. Como ficou o Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda na Lei 14.020/2020(conversão da MP 936/2020). 2020.Disponível em: https://www.dieese.org.br/notatecnica/2020/notaTec243lei14.020_MP936.html


DEPARTAMENTO INTERSINDICAL DE ESTATÍSTICA E ESTUDOS SOCIOECONÔMICO. Quem cuida das cuidadoras: trabalho doméstico remunerado em tempos de coronavírus. 2020. Disponível em: https://www.dieese.org.br/estudosepesquisas/2020/estPesq96covidTrabalhoDomestico.html

IBGE, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua. 2019. Disponível em https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv101722_informativo.pdf Acesso: 17/06/2020


IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua-COVID19. 2020 Disponível em: https://covid19.ibge.gov.br/ acesso: 18/06/2020


KRÚPSKAIA,N,K. Deve-se ensinar “coisas de mulheres” aos meninos? A revolução das mulheres, emancipação feminina na Rússia soviética. Boitempo. 2017.


ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA A IGUALDADE DE GÊNERO E O EMPODERAMENTO DAS MULHERES – ONU MULHERES, ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO

TRABALHO – OIT; COMISSÃO ECONÔMICA PARA A AMÉRICA LATINA E O CARIBE – CEPAL.Trabalhadoras remuneradas do lar na América Latina e no Caribe frente à crise do

Covid-19. Disponível em: https://www.cepal.org/pt-br/documentos/trabalhadoras-

remuneradas-lar-america-latina-caribe-crise-covid-19.


TZUL, G. EL Patriarcado del Salario: “Lo que llaman amor, nosotras lo llamamos trabajo no pagado”. 2017. Disponível em: https://www.resumenlatinoamericano.org/2017/02/14/el-patriarcado-del-salario-lo-que-llaman-amor-nosotras-lo-llamamos-trabajo-no-pagado/

IDOSOS (AS) NO MERCADO DE TRABALHO




O período da vida comumente chamado “terceira idade” é ainda, muitas vezes, tido em nossa sociedade como um período de improdutividade, de decadência da força e da vida. Segundo Ramos, Souza e Caldas ( 2008) tais preconceitos derivam da falta de informação diante do potencial das pessoas idosas. Dessa forma, cria-se no mercado de trabalho uma estigmatização do envelhecimento como sinônimo de um processo degradante. Também podemos inferir que a falta de políticas públicas mais eficazes, tal como o déficit na fiscalização nas leis de proteção ao idoso fortificam a discriminação sofrida por essa população.

Os autores Muniz e Barros (2014) afirmam que pela lógica mercantil rígida, tão presente em nossa sociedade atual, parar de trabalhar traz danos profundos aos âmbitos profissional, familiar e social da vida do trabalhador. Assim, o sujeito velho é isolado da sociedade e, nesse momento, é atribuído a ele uma imagem de um ser improdutivo e impotente. Segundo as Organização Mundial da Saúde (OMS) (2005), o grupo composto por pessoas “mais velhas” é formado por pessoas com idade a partir de 60 anos, e espera-se que até 2025 o Brasil seja o sexto país com a maior população de idosos no mundo (33,4 milhões).

Em vista desse cenário de crescimento dessa população, é de grande importância a realização de discussões sobre a temática para a sua desmistificação e inclusive a realização de ações de preparação para a aposentadoria. Pois, de acordo com Ramos, Souza e Caldas (2008), embora por vezes o trabalho possa ser de alguma forma aversivo, sua perda promove um sentimento de solidão, angústia e até mesmo sentimentos destrutivos que podem, em última instância, levar à morte. Ademais, o trabalho continuado mesmo depois da aposentadoria, seja ele remunerado ou não, é um caminho trilhado por muito dos idosos hoje, tanto pelo benefício oferecido não suprir necessidades básicas, ou porque o aposentado é a fonte principal da renda da família (MUNIZ e BARROS, 2014) ou mesmo como uma forma de fortalecer o sentimento de pertença e integração social.

Ainda de acordo com os autores supracitados, com esse grupo de pessoas com mais de 60 anos adentrando no mercado de trabalho, quando conseguem, se fazem necessárias adequações tanto dos sujeitos quanto das empresas no processo produtivo que nem sempre é fácil para o indivíduo. Em vista das altas taxas de desemprego e, segundo Muniz e Barros (2014), por estarem inseridos num sistema capitalista que exalta o jovem e busca a extinção do velho, esses indivíduos se veem muitas vezes obrigados a aceitar a precarização e desvalorização diante de uma sociedade que tende a não valorizar sua experiência, a não protegê-lo e também não cria políticas públicas para um acompanhamento dessa população que tende a crescer ainda mais.

Em vista disso, podemos observar que há contradições nessa relação do idoso no mercado de trabalho e que queremos evidenciar em uma primeira discussão aqui no blog. Se por um lado, o idoso pode ser percebido como um corpo velho improdutivo e isolado, não se pode negar que, muitas vezes ele é o provedor da renda familiar e, em muitas situações, a sua experiência é essencial na solução de situações e conflitos laborais mais complexos. As altas taxas de desemprego, que os economistas neoliberais, segundo Nardi (2006), chamam de “taxa natural” do desemprego, são uma ferramenta de pressão perante, em específico aqui discutido, o (a) trabalhador (a) velho (a). Esses, portanto, mesmo sem conseguir dar continuidade ao seu trabalho e por ser a renda fundamental no seio familiar, adentram ao trabalho informal (MUNIZ e BARROS, 2014). Tais aspectos são característicos da globalização, que tende ao sucateamento de políticas sociais para um “possível” crescimento de acordo com a lógica neoliberal (NARDI, 2006).

Esses processos são bem conhecidos da população, mesmo que o teor político não seja percebido em um primeira momento. Tais ações de ataque aos trabalhadores, mais especificamente, velhos podem ser encontradas em produções da sétima arte, como no filme “Eu, Daniel Blake” que conta a história de um artesão que após um ataque cardíaco começa uma batalha contra o sistema de benefício social. O filme aborda questões aqui já discutidas de forma sensível, porém, deve-se lembrar que ainda assim é uma obra ficcional e comercial. Mas que é de grande valia para os espectadores. É nítida a supervalorização do capital diante da vida da classe trabalhadora que tanto foi explorada em toda sua vida e no final da mesma não tem as mínimas condições de gozar a cultura, o lazer e o convívio familiar.

Também convidamos aos leitores do Blog a conhecerem projetos que promovem ações de promoção de saúde no trabalho como o “Projeto de Valorização do Aposentado” e “Projeto de preparação para a Aposentadoria” que fazem parte do “Programa Saúde e Bem-Estar no Trabalho” desenvolvido pela Coordenadoria de Qualidade de Vida no Trabalho da Pro-Reitoria de Gestão de Pessoas da UFC. Segue o contato para mais informações: coqvt.progep@ufc.br.



*Imagem retirado do site: eshoje.com.br










referências


Organização Mundial de Saúde (OMS). Envelhecimento ativo: uma política de saúde. Brasília: Organização Pan-Americana da Saúde; 2005. Disponível em <https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/envelhecimento_ativo.pdf> Acesso em: 31 out. 2020.

Nardi,H,C. Ética, Trabalho, Subjetividade. Ed. UFRGS. 2006

Muniz, T,S. Barros, A. O trabalho idoso no mercado de trabalho do capitalismo contemporâneo. Ciências humanas e sociais.103-106. 2014. Disponível em: <https://periodicos.set.edu.br/fitshumanas/article/view/1079> Acesso em: 30 out. 2020.

Ramos, E,L. Souza, N,V,O. Caldas, C,P. Qualidade de vida do idoso trabalhador. Rev. enferm. UERJ, Rio de Janeiro, 2008. Disponível em : <http://files.bvs.br/upload/S/0104-3552/2008/v16n4/a507-511.pdf> Acesso em 30 out. 2020.

Em Portugal, existe um banco onde a moeda não é o dinheiro e sim o tempo.


"O Banco do Tempo funciona como um sistema de troca de ações solidárias. A instituição troca o dinheiro pelo tempo para que as pessoas possam fazer serviços umas para as outras.

Cada membro oferece e recebe um serviço. Por exemplo, tratando-se de um médico, ele pode oferecer uma consulta a quem não tem condições de pagar pelo serviço e, depois, receber um serviço em troca de outro membro.

“Através das trocas e dos encontros, o Banco de Tempo enriquece o mundo relacional das pessoas que nele participam, joga um papel importante na recuperação, em novos moldes, da solidariedade entre vizinhos e no combate à solidão; favorece a colaboração entre pessoas de diferentes gerações, proveniências e condições sociais. Contribui também para o desenvolvimento e partilha de talentos e facilita o acesso a serviços que dificilmente poderiam ser obtidos, dado o seu valor de mercado. O Banco de Tempo suscita questionamentos e incentiva mudanças no modo como vivemos em sociedade”, diz o site do banco.

O serviço é pago com um “cheque do tempo”. Quem prestou o serviço deposita o cheque, que é creditado em sua conta, e pode a partir daí obter serviços oferecidos pelos outros membros do banco.

Cada hora de trabalho prestada por um membro equivale a uma hora de serviço qualquer que ele precise no futuro. O bacana é que todas as horas têm o mesmo valor, independente do serviço oferecido. Uma economia solidária e justa."

Fonte: Revista Pazes

Disponível em: https://www.revistapazes.com/banco-moeda-e-tempo/

Para refletir:  Em Portugal, criaram o Banco do Tempo, uma instituição que visa a troca de serviços entre os usuários, tendo objetivos díspares das atuais entidades financeiras presente no mundo capitalista. Nele o sujeito oferece seus serviços profissionais ou não, e recebe um "cheque do tempo" que é creditado em sua conta, podendo assim ser usado para obter serviços de outros usuários. Em última instância, a solidariedade é a única moeda de troca presente nesta instituição, pois todos os serviços permutados possuem igual valor, independente da especialidade, nível de complexidade ou atividade oferecida. O Banco do Tempo uniformiza o tempos dos sujeitos e transpassa assim as particularidades de cada profissão, promovendo a colaboração entre diferentes gerações e classes sociais.

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Renda básica universal: a última fronteira do Estado de bem-estar social

(Um grupo de pessoas faz fila para entrar em um refeitório social em Madri VÍCTOR SAINZ)
 

“Os testes com salário garantido para todos os cidadãos independentemente de estar trabalhando se multiplicam pelo mundo”.


“Porque aqueles que existem são cada vez menos eficazes diante da desigualdade ou do desaparecimento de milhares de empregos por causa da robotizarão, da economia dos algoritmos e da inteligência artificial”.


“Em vários países da OCDE, apenas uma em cada quatro pessoas que procuram trabalho recebe algum subsídio”, diz Herwig Immervoll, chefe de Políticas Sociais para o Emprego da organização que reúne as nações mais desenvolvidas do planeta”.


“Sob este céu escuro começa o debate da Renda Básica Universal (RBU). Uma renda mínima que todas as pessoas receberiam “simplesmente” por existir”.


“A Renda Básica Universal pode ser uma ferramenta útil diante da desigualdade, mas isso não é o fim da história”, diz Branko Milanović, economista e professor da Escola de Políticas Públicas da Universidade de Maryland”.


“Os críticos da proposta apelam à experiência e ao dinheiro. “Não existe nenhum país neste momento que a esteja aplicando, não há nenhuma prova sólida, prolongada no tempo e com caráter universal para introduzi-la”, critica Miguel Ángel Bernal, professor no Instituto de Estudos da Bolsa de Valores (IEB) da Espanha.

"Um país cuja distribuição de renda tenha muitos ricos e poucos pobres poderia financiar uma renda universal. Mas as economias ocidentais não são assim. Sua distribuição tem um viés para rendas menores e, como resultado, um sistema dessa natureza necessitaria de impostos mais altos, causando problemas econômicos e políticos”, diz Nicholas Barr, professor de Economia Pública da London School of Economics. E conclui: “Uma RBU completa não é viável”.


“Um dos projetos-piloto mais entusiasmantes acontece em Stockton. Uma cidade na Califórnia deprimida pela pobreza, violência de gangues, desemprego e sem-teto. Seu prefeito, Michael Tubbs, de 27 anos, o mais jovem dos EUA e o primeiro afro-americano a ocupar o posto na cidade, tem um palpite. Seu programa-piloto, que começará no outono, consiste em dar 500 dólares por mês a 100 famílias durante dois anos e avaliar os resultados”.


Fonte: EL PAÍS.



Para refletir: A notícia relata a experiência de vários países que adotaram a Renda Básica Universal (RBU) como tentativa de solucionar o problema da desigualdade social ou o desaparecimento de milhares de empregos por causa da robotização. Trata-se de uma renda mínima que todos receberiam independente de estar trabalhando ou não. A notícia também faz alusão ao fato de que a adoção dessa medida pode significar a "última fronteira", ou seja, o fim do "Estado de bem-estar social". O "Estado de Bem-estar Social (traduzido do inglês Welfare Satate)" é uma forma de organização política na qual o Estado tem a função de garantir e organizar a vida social, econômica e política de uma determinada região, com foco no combate e erradicação das desigualdades sociais. No entanto, a notícia sugere que apesar da criação da Renda Básica Universal funcionar como uma forma de combate as desigualdades sociais, ela por si só não resolveria esse problema. Além disso, alguns críticos apontam que nos países ocidentais onde as políticas de estado são voltadas para rendas menores, teriam como resultado, um sistema dessa natureza necessitaria de impostos mais altos, causando problemas econômicos e políticos.

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"Brasil entra na lista suja da OIT"


Retrocessos trazidos pela reforma trabalhista fazem do país uma referência internacional em violações aos tratados de proteção dos trabalhadores
Por Gilson Camargo e César Fraga*
    OIT relacionou o país entre as 24 nações que descumprem as normas internacionais, durante a 107ª Conferência Internacional do Trabalho, em Genebra
    OIT relacionou o país entre as 24 nações que descumprem as normas internacionais, durante a 107ª Conferência Internacional do Trabalho, em Genebra
    Foto: Crozet/Pouteau/ Fotos Públicas
    Em plena crise gerada pela greve dos caminhoneiros, que são uma referência de categoria heterogênea e fragmentada entre contratados, terceirados e quarteirizados, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) incluiu o Brasil na lista de países acusados de descumprir as normas internacionais de proteção dos trabalhadores por conta da precarização das relações e das formas de contratação e enfraquecimento da estrutura sindical criados pela reforma trabalhista.
    A decisão foi divulgada oficialmente nesta terça-feira, 29, em sessão da Comissão de Normas da 107ª Conferência Internacional do Trabalho, em Genebra. A sessão foi acompanhada pelo procurador-geral do Ministério Público do Trabalho (MPT), Ronaldo Fleury e pelo procurador e assessor internacional da instituição, Thiago Gurjão.
    O Brasil entrou no grupo de 24 países, ao lado de Haiti e Camboja, depois de consultas feitas pelo Ministério Público do Trabalho e denúncias de sindicatos contra a reforma trabalhista.
    A OIT integra o sistema das Nações Unidas e possui um comitê que irá analisar a denúncia de violação de convenções internacionais ratificadas pelo Brasil. Em 2017, antes da aprovação da reforma trabalhista, o Brasil chegou a ser incluído na lista mais ampla e preliminar, mas acabou excluído da relação definitiva.
    Exposição do país se deve à reforma trabalhista, ressaltou o procurador-geral do Trabalho, Ronaldo Fleury
    Exposição do país se deve à reforma trabalhista, ressaltou o procurador-geral do Trabalho, Ronaldo Fleury
    Foto: Marcelo Camargo/ Agência Brasil
    Para Fleury, a inclusão expõe o Brasil internacionalmente e é fruto da aprovação, de forma açodada, de uma reforma que torna precárias as relações de trabalho no país. “É uma pena o Brasil ser exposto internacionalmente, entretanto, isso é resultado da reforma trabalhista, que só visou a precarização das relações de trabalho, criando formas alternativas e precarizantes de contratação e, principalmente, visando o enfraquecimento da estrutura sindical”, afirma.
    Segundo o procurador-geral do MPT, o movimento dos caminhoneiros mostra como entidades com baixa representatividade entre suas categorias têm dificuldade de negociar: “O Brasil inteiro sente o enfraquecimento da estrutura sindical com o movimento dos caminhoneiros, das empresas, que tem trazido o grande drama de se fazer um movimento muito rapidamente, entretanto não tem como sair dele pela falta de legitimidade, pela falta de representatividade das entidades sindicais dos trabalhadores. Essa situação vai com certeza se refletir nas outras categorias, com a ampla pejotização”, acrescenta Fleury.
    “A inclusão do Brasil na lista de casos vai ao encontro do que o MPT já vinha alertando quanto aos riscos de insegurança jurídica e prejuízos no cenário internacional decorrentes do descumprimento de convenções ratificadas pelo país, com prejuízos para as instituições públicas, trabalhadores, empregadores e a sociedade como um todo”, acrescenta o assessor internacional do MPT, procurador Thiago Gurjão. Segundo ele, o MPT espera que “os mecanismos de supervisão internacionais sirvam de orientação e referência para possíveis alterações legislativas de adequação aos preceitos internacionais, assim como para a atuação dos integrantes do sistema de justiça, responsáveis por interpretar e aplicar a legislação, o que significa necessariamente observar as convenções internacionais ratificadas pelo Brasil”.
    Direito à sindicalização e à negociação coletiva
    "No início desse ano, o Comitê de Peritos da OIT pediu ao governo brasileiro a revisão dos pontos da reforma trabalhista que permitem a prevalência de negociações coletivas sobre a lei. O Comitê confirmou o entendimento de que a reforma trabalhista viola a Convenção nº 98, sobre direito de sindicalização e de negociação coletiva, ratificada pelo Brasil. Foi pedida ainda a revisão da possibilidade de contratos individuais de trabalho estabelecerem condições menos favoráveis do que o previsto na lei. A reforma trabalhista estabelece a possibilidade do negociado prevalecer sobre o legislado, inclusive para redução de direitos. Prevê também a livre negociação entre empregador e empregado com diploma de nível superior e que receba salário igual ou superior a duas vezes o teto do Regime Geral de Previdência Social (RGPS)."
    Centrais pedem revogação da reforma
    "Também fizeram parte da Conferência representantes das centrais sindicais brasileiras: Central Única dos Trabalhadores (CUT), Central dos Sindicatos Brasileiros (CSB), Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), Força Sindical (FS), Nova Central Sindical de Trabalhadores (NCST), União Geral dos Trabalhadores (UGT)."
    "Para as centrais, a decisão da confirma as denúncias contra as práticas anti-sindicais do governo que se tornaram ainda mais graves com a tramitação do projeto da reforma no Congresso Nacional, aprovada sem diálogo com as representações de trabalhadores e trabalhadoras, neste caso, violando também a Convenção 144 da OIT. A nota diz ainda “diante da decisão da OIT, os trabalhadores e trabalhadoras brasileiros esperam agora que o governo reconheça a gravidade do erro cometido e faça a revogação imediata da reforma trabalhista”.
    Judiciário trabalhista

    Para o desembargador do trabalho Luiz Alberto de Vargas, do TRT da 4ª Região, a posição do Comitê de Peritos reitera o que o representante do OIT manifestou nas poucas audiências públicas realizadas no Senado: “há aspectos muito preocupantes na reforma trabalhista, que precarizam o trabalho em sentido oposto ao que preconiza a OIT, ou seja, o compromisso dos países com o trabalho decente, aquele que assegura aos trabalhadores um emprego que respeita um padrão mínimo de direitos como previstos nas convenções internacionais ratificadas pela maioria dos países, inclusive o Brasil”.


    Fonte: Extra Classe.


    Disponível em: https://www.extraclasse.org.br/exclusivoweb/2018/05/brasil-entra-na-lista-suja-da-oit/


    Para refletir: o Brasil agora integra o corpo de países da lista suja da OIT (Organização Internacional do Trabalho), tendo como principal promovedor deste fato a reforma trabalhista implantada pelo atual governo. A recente greve dos caminhoneiros também é citada logo no início da matéria, uma categoria de trabalhadores marcada pelas grandes jornadas e péssimas condições de trabalho. A "moderna" reforma imposta pelo governo só contribuiu e flexibilizou a criação e a manutenção de classes de trabalhadores semelhantes aos caminhoneiros. Em outra palavras, ela apenas cronifica e intensifica o processo de precarização das relações/ contratações de trabalho e enfraquece os sindicatos, espalhando uma sombra negra cada vez mais densa e imprevisível sobre o futuro de cada trabalhador brasileiro. 


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    “A felicidade de trabalhar das oito da manhã às três da tarde”.

            (Final da jornada de trabalho na sede da empresa em Madri.)

     "Terça-feira. São 15h no relógio. Milhares de pessoas começam a sair de um edifício em um bairro no subúrbio de Madri. Parece o intervalo para o almoço; na verdade, é a saída do trabalho. Não é um feriado ou o horário especial de Natal. Neste escritório é o cotidiano. Acontece todos os dias desde 2008. Naquele ano, a empresa espanhola Iberdrola concordou com seus funcionários, cerca de 9.000 trabalhadores, em universalizar a jornada intensiva: trabalhar de 7h15 até 14h50 com 45 minutos de flexibilidade à hora de entrar ou sair todos os dias do ano”.

    “Seis anos depois, Castresana, que esteve no comando dessa mudança, defende a decisão com números: “Melhoramos a produtividade e ganhamos mais de meio milhão de horas por ano. Reduzimos as faltas em 20% e os acidentes de trabalho em 15%”.

    “Na parte da manhã, você chega com outra mentalidade”, diz Teresa Roch, 31, que trabalha no departamento de recursos humanos. Depois de algum tempo trabalhando na Escócia, entrou na Iberdrola em julho de 2013”.

     “Quando você faz um horário por 30 anos, é difícil”, disse Castresana. 'É uma grande mudança na cultura de trabalho'. “Posso não fazer a jornada intensiva?”, chegou a pedir um funcionário. Pilates, natação, inglês... Logo depois de se concentrar no trabalho, nos corredores começaram a falar das atividades extra-trabalho. “Não sei se alguém chegou a se inscrever em alguma delas”, brinca Montes. Em pouco tempo, ninguém queria nem ouvir falar de passar a tarde em frente ao computador".

    “Os funcionários tornaram-se conscientes de que precisam aproveitar bem o tempo para fazer seu trabalho e ir embora na hora certa”, acrescenta. “Evitam interrupções e se concentram no esforço. O resultado: maior produtividade”.

    "A nossa vida está marcada pelo tempo. Além das horas de trabalho, que articulam o dia, somos marcados pelo ritmo da vida, a maneira como organizamos nosso tempo livre (horário pessoal), assim como o cronograma da sociedade: aquelas horas que se pode comprar, ir ao cinema ou jantar em um restaurante. “Na Espanha, com mais horas de luz e a possibilidade de realizar atividades quase a qualquer hora, as pessoas não têm tanta pressa para ir para casa”, diz Castresana”.

    “Uma má gestão dos horários de trabalho e a falta de medidas de flexibilidade podem acarretar um impacto negativo significativo sobre as empresas.”

    Fonte: Jornal El País.


    Para refletir: A notícia acima relata a experiência bem sucedida da empresa espanhola Iberdrola ao propor a redução da jornada de trabalho dos seus funcionários. A empresa passou a adotar o horário de 7h15 até 14h50 com 45 minutos de flexibilidade à hora de entrar ou sair todos os dias do ano. De acordo com Ramón Castresana, diretor de Recursos Humanos da empresa, os ganhos propiciados pela medida foram: aumento da produtividade, redução do absenteísmo e dos acidentes de trabalho, fato corroborado com a opinião de alguns funcionários. Segundo a notícia, é importante também ressaltar que a nossa vida está marcada pelo tempo. Além das horas de trabalho, que articulam o dia, somos marcados pelo ritmo da vida, a maneira como organizamos nosso tempo livre (horário pessoal), assim como o cronograma da sociedade: aquelas horas que se pode comprar, ir ao cinema ou jantar em um restaurante. Nas sociedades capitalistas atuais cada vez é diminuída a fronteira entre tempo de trabalho e tempo livre, pois o trabalho tem invadido mais o tempo livre dos trabalhadores por meio da disseminação de tecnologias como celulares e tablets e computadores portáteis. Por isso, vale frisar que a redução da carga horária de trabalho e a separação entre trabalho e vida pessoal são fatores importantes para a promoção da saúde e da qualidade de vida dos trabalhadores.

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